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Política para Indignados

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Política para Indignados

O que fazer com Bolsonaro?

Roberto Requião, senador, PR

12/11/2018

A sociedade brasileira saiu das últimas eleições tão confusa quanto entrou. A campanha foi pobre em termos políticos. A polarização se deu, em muitos casos, em termos de comportamento individual, e não de propostas fundamentais. Nesse aspecto, não houve grandes diferenças entre os candidatos. O tema da corrupção sequestrou o debate. É curioso, mas a poucos ocorreu que corrupção é um tema da polícia e da Justiça, não de Presidência da República. O presidente da República é aquele que traça os grandes rumos do país, a grande estratégia, e não alguém que sai por aí a caçar corruptos. Ele tem mais a fazer.

Na minha interpretação, o resultado da eleição refletiu uma profunda decepção da sociedade com a elite política. Não apenas com o PT, que coletivamente levou a pecha de partido corrupto, de forma injustificada, mas contaminando a todo o sistema partidário. E a razão disso é óbvia: a situação objetiva da maioria do povo está péssima. E a razão disso está diante de nossos olhos: um nível de desemprego e subemprego sem precedentes, da ordem de quase um terço da população economicamente ativa. Isto, sim, não Jair Bolsonaro individualmente, representa o grande risco do nazismo. As pessoas pensam: se está tão ruim na democracia, porque não experimentar outros sistemas?

Para os intelectuais, os cultos, as classes dominantes, as elites dirigentes, a democracia é um bem absoluto. Para os pobres e os muito pobres o valor absoluto é a comida para si e para a família, garantida por um emprego regular. Os candidatos, todos eles, não souberam captar essa mensagem de grande parte da população. Como não captaram a segunda maior preocupação dos pobres, a segurança pública. Isso foi colocado por um dos candidatos de forma absolutamente emocional, prometendo enfrentar bala com mais bala. Diante desse discurso superficial e patético, os demais candidatos ficaram intimidados. Não surgiu, em todo o debate presidencial, a indicação de uma estratégia para enfrenar a questão da segurança politicamente.

Isso não é surpresa. Não há política de segurança por cima de uma realidade miserável atingindo quase um terço da população. As classes médias e as elites cultas têm a ilusão de que, com mais polícia e mais equipamentos de segurança, assim como com inteligência, o mantra mais recente e menos compreendido pelo povo, vai-se resolver o problema da segurança e assegurar a tranquilidade das metrópoles onde moram os ricos. Sim, é uma ilusão. As realidades de pobres e ricos se interpenetram nas cidades, pelo menos enquanto não se construírem muros que os separem fisicamente. Aí, sim, será quando a democracia não subsistirá no mundo real da nossa vida comunitária dividida.

O mais surpreendente nessa eleição não foi o resultado. O mais surpreendente foi a campanha. Ela ignorou a maior crise econômica e social de nossa história, conduzida de forma deliberada pelo neoliberalismo tosco de Michel Temer. Os críticos do PT, em suas avaliações da situação brasileira, saltaram o período Temer e foram diretamente para o período de Lula, não reconhecido pelas políticas sociais e mais identificado sobretudo pela corrupção. Já os defensores da candidatura do PT insistiram nos ganhos sociais de Lula, omitindo a política de Michel Temer, responsável direto pelo afundamento do Brasil em desemprego, e absolutamente indiferente a uma política de pleno emprego. Note-se que, nos últimos anos, a queda acumulada do PIB atingiu 8%, algo inédito em nossa história.

Eleição é sempre um campo de decisão emocional, e não da razão. Em termos rigorosamente racionais, defendi Dilma Roussef contra o impeachment, por concluir que não havia motivo racional para isso. Usando a razão, combati – como continuo combatendo – o governo Temer, com suas políticas anti-povo e anti-nacionais. Apesar de ter milhões de seguidores de todo o país, isso não foi suficiente para que eu ganhasse a minha reeleição no Paraná. Certamente que houve manipulações midiáticas contra mim, mas o motivo central, como aconteceu com outros candidatos progressistas, é que fui confundido com uma elite política que está indiferente ao interesse público.

Agora é olhar para a frente. Creio que temos que seguir em duas vertentes, uma de organização da sociedade civil e outra de reorganização do sistema partidário. Na vertente de organização da sociedade civil, que é a matriz última do poder social, é preciso que sejam organizados movimentos políticos, de caráter objetivo, porém em todos os níveis, desde o universitário ao que se convenciona chamar de povão. Esses movimentos devem ser articulados com uma visão estratégica que defina claramente os objetivos e as formas operacionais. Fico feliz com o fato de que já tem gente cuidando disso.

A vertente política é bem mais complexa. Não acredito em propostas de articulação partidária de cima para baixo. Isso já se fez muito no Brasil com resultados pífios e insuficientes. É claro que precisamos de lideranças para articulação do novo. Mas é necessário, sobretudo, que essas lideranças se colem diretamente no interesse público. O ideal é uma convergência, a seu tempo, da vertente de articulação da sociedade civil com a vertente de rearticulação partidária. Em qualquer hipótese, deve-se estar presente sempre que uma democracia representativa, por sua natureza mesmo, não pode prescindir de estrutura partidária forte e baseada nos interesses reais do povo.

Precisamos de uma reforma política que reordene as estruturas do Estado. Entretanto, não creio que devemos nos antecipar, nesse caso, à reforma política mais ampla, capaz de fortalecer a democracia mas também de nos prevenir de assaltos oportunistas e demagógicos à democracia. Tais temas não podem ser exclusivos da comunidade política. Devem ser debatidos também, numa visão propositiva, nos níveis mais profundos da sociedade civil – isto é, vinculados ao povo através de lideranças autênticas, não manipuladas pela mídia. Dessa forma se construirá uma democracia atualizada, e não o simulacro de democracia que temos, onde os próprios representantes do povo, mediante emendas oportunistas e manipuladas, simplesmente retalharam e desfiguraram a Constituição que chamamos de cidadã.

Não estou pessimista. Com visão realista enxergo oportunidades à frente resultantes das próprias contradições de um governo que nasce sem estratégia, sem planejamento, sem equipe coerente – em uma palavra, sem rumo claro. De uma forma um tanta caricata, dou-lhes um único exemplo do que serão as múltiplas contradições do governo: Jair Bolsonaro vai levar quatro generais de exército reformados para seu governo. Alguns de áreas chave, como a de infraestrutura. Ora, Bolsonaro herdará de Temer a Emenda 95, que congela os orçamentos públicos. As senhoras e senhores senadores acreditam que os quatro generais se conformarão com o orçamento congelado devido às graças do super-ministro Paulo Guedes?

Eles que se virem. Não aprovaram todas as medidas de Temer com vistas a aprofundar o neoliberalismo no Brasil? Não aprovaram os cortes sucessivos de gastos públicos? Não pretendem aproveitar em sua equipe e nas suas propostas o que entendem como o grande legado do governo Temer? Nós nos colocaremos naquela posição recomendada por Cristo aos apóstolos, vigiai e orai.

Se no meio das banalidades e inconsequências que vêm por aí aparecer, por acaso, uma ou outra medida em favor do povo, estamos dispostos a considerar em termos de caso a caso. No conjunto, a nossa posição por enquanto é de esperar. E não se espere que nos omitiremos enquanto vozes de oposição quando se tratar de materialização de medidas, como as sugeridas por pronunciamentos recorrentes de Bolsonaro e de seu super-ministro, na direção contrária a da civilização.

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