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Política para Indignados

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A volta da tigrada

Marcelo Zero, sociólogo, DF

23/10/2018

A possível eleição de Bolsonaro poderá ser mais destrutiva que a ditadura de 1964.

Ele, que defendeu ontem a prisão ou a expulsão de opositores, assumiu sua face mais sinistra.

Bolsonaro é o descendente direto daquilo que o General Golbery denominava de "a tigrada". Esse era o pessoal militar encarregado diretamente dos órgãos de inteligência e da repressão aos opositores políticos do regime.

Era o pessoal que vigiava, perseguia, torturava, sequestrava e matava. Era gente da direita mais extrema, de menor nível intelectual, que se encarregava de fazer o trabalho sujo para o regime.

Era também um pessoal difícil de controlar, selvagem, que se opunha a quaisquer concessões para suavizar a ditadura e dar-lhe uma aparência de civilidade. Queria o extermínio de toda a oposição, desde os pequenos grupelhos que haviam aderido à luta armada aos opositores democráticos e de consciência. Para eles, todos eram comunistas a serem varridos do mapa, como fala hoje o capitão Bolsonaro.

Quando Geisel iniciou o processo da "abertura lenta, gradual e segura", a tigrada deu trabalho. Se opôs ferrenhamente às pequenas concessões a um mínimo de civilidade e continuou a torturar e matar quaisquer opositores, mesmo os mais pacíficos.

A luta surda entre os moderados e a linha-dura (a tigrada) continuou por alguns anos. Com o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, que teve ampla repercussão internacional, Geisel resolveu demitir Ednardo d'Ávila, chefe do Segundo Exército e um dos expoentes da linha-dura. Mais tarde, conseguiu demitir Silvio Frota, o grande chefão da tigrada e da linha-dura.

Mesmo após a abertura, a tigrada continuou a dar trabalho. Planejaram até atentados que fariam centenas ou milhares de vítimas inocentes, como o do Rio Centro, que felizmente não concretizou, pois a bomba explodiu literalmente no colo dos terroristas.

Pois bem, Bolsonaro tem a mesma mentalidade extremamente retrógrada e violenta da "tigrada" de antanho. Por isso, elogia torturadores, como Brilhante Ustra, diz que a democracia não vale nada, que a ditadura errou porque matou pouco, que se deveria matar pelo menos umas 30 mil pessoas no Brasil, inclusive inocentes. Argumenta que o Congresso deveria ser fechado, que as mulheres devem ganhar menos que os homens, que os índios não deveriam ter um centímetro de terra, que os negros quilombolas não servem nem para procriar e uma série de outras barbaridades.

Admirador da ditadura e da tortura, misógino, homofóbico e racista, Bolsonaro, em suas quase três décadas de medíocre e obscuro político profissional, que sempre se beneficiou das benesses do sistema, nunca votou a favor do povo trabalhador. Ao contrário, sempre se alinhou com os ricos, com os poderosos, e apoiou os piores projetos do Temer, como a Emenda Constitucional Nº 95 e a reforma trabalhista que aniquilou os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil.

Ademais, é entreguista, privatizante e quer voltar a uma política externa de alinhamento automático com os EUA. Admirador de Trump, já afirmou até mesmo que entregaria a Base Alcântara para os EUA.

Nesse sentido, Bolsonaro é muito pior que os militares reformistas da ditadura, que acabaram prevalecendo.

Uma boa parte desses militares, os que seguiam Geisel, tinham uma visão claro do papel que o Estado deveria ter no desenvolvimento brasileiro e eram nacionalistas. Defendiam e estimulavam as empresas brasileiras, estatais e privadas.

Ao mesmo tempo, nos tempos de Geisel, o Brasil começou a política externa do chamado "pragmatismo responsável", que distanciou o país do alinhamento automático ao polo norte-americano da Guerra Fria. O Brasil começou a defender interesses próprios. Assim, o nosso país foi o primeiro a reconhecer, em 1975, a independência de Angola, regida pelos marxistas do MPLA, pois chegou-se à conclusão que isso ajudaria a projetar os interesses brasileiros na África, que saia do colonialismo.

Bolsonaro e seu time estão muito longe de terem essas preocupações com a defesa da economia brasileira e com a projeção dos interesses próprios do Brasil no cenário mundial. Bem ao contrário, pregam as privatizações selvagens como solução, desejam implantar políticas ultraneoliberais e submeter o Brasil à órbita geoestratégica dos EUA.

Além disso são escancaradamente autoritários e violentos. A ditadura de 1964 praticou amplamente a tortura. Todo mundo sabia disso. Mas até mesmo os militares da linha-dura tinham vergonha dela e procuravam ocultá-la.

Bolsonaro, não. Bolsonaro defende a tortura, os sequestros e os assassinatos de forma aberta, até mesmo com orgulho. Para ele, Ustra é um herói. Seu vice, Mourão, o Ariano, vai na mesma linha.

Não se enganem, Bolsonaro, se eleito, será difícil de ser controlado. Como Hitler na República de Weimar, tentará assumir um poder absoluto, inconteste.

Quando Hitler se livrou dos "políticos antigos" e passou a controlar todas as instituições, a maior parte da população aplaudiu. Deu no que deu.

É necessário se entender que o fascismo tupiniquim também saiu do controle. A nossa direita tradicional, que saiu às ruas junto com Bolsonaro, MBL e que tais, na época do golpe, achou, como Hindenburg na Alemanha, que os fascistas podiam ser controlados. Não foram. Nunca são.

Uma vez aberta a caixa de Pandora do fascismo, é muito difícil fechá-la. Mesmo para o líder fascista.

Como agravante, Bolsonaro será um desastre para a economia brasileira, pois seu projeto é ultraneoliberal. Vai ampliar a destruição dos direitos, vai cortar mais gastos e vai ampliar o entreguismo e as desnacionalizações. Ele quer alegrar o grande capital, nacional e internacional, e agradar seu ídolo, Donald Trump.

Isso só poderá ser feito às custas de uma maior exploração dos trabalhadores, o que tenderá a aumentar a miséria e o desemprego.

As contradições sociais inevitavelmente vão se agravar e a tensão política irá aumentar. Para compensar, Bolsonaro terá de apresentar alguns resultados na área da política, mais especificamente na área da repressão. Tomará medidas, como a alteração da Lei do Terrorismo, contra "bandidos" e contra movimentos sociais e opositores, os quais serão apresentados, obviamente, como o bode expiatório de seu fracasso econômico.

Corre-se, assim, o sério risco da implantação de um "golpe dentro do golpe", com a geração de uma ditadura mais ou menos dissimulada, tutelada pelos militares, e coonestada por um Congresso extremamente conservador e por um Judiciário em parte conivente com a "restauração da ordem" e com a perseguição aos "vermelhos".

Tudo em nome da "democracia" e do combate ao "caos" e à "corrupção". Exatamente como em 1964.

Bolsonaro não é candidato a presidente. É, assumidamente, pelo que declara de forma pública, um candidato a ditador, que quer prender e expulsar opositores.

É uma aberração que envergonha o Brasil perante o mundo civilizado.

É a volta da tigrada assassina ao cenário do Brasil.

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