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Economia para Indignados

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Economia para Indignados

Porque a economia vai se contrair ainda mais em 2019

J. Carlos de Assis, economista, RJ

08/07/2019

A economia deve entrar em recessão técnica no primeiro semestre. Ou seja, serão dois trimestres seguidos de queda do PIB. Não é surpresa para ninguém que sabe fazer algumas poucas contas. Menos surpreendente ainda será a constatação de que todo o ano estará perdido, inexoravelmente, quando se revelarem as estatísticas do produto em 2019. Aposto em algo entre menos um e menos três para a queda do PIB no ano corrente.

Acaso estou fazendo essas projeções para atacar econômica e politicamente o governo Bolsonaro? Não. Estou apenas deduzindo o desempenho da economia do processo econômico atual. Para você que esteve sempre longe de dados econométricos, mesmo elementares, vou contar o segredo do PIB. Ele é uma composição um tanto arbitrária de consumo, investimento privado, gasto público e, em escala menor, saldo do comércio.

Para que o PIB cresça, esses quatro elementos têm que crescer, ou algum ou alguns deles tem que compensar a queda dos outros. Então façamos as contas. O consumo (maior segmento, uns 70% do PIB) está caindo barbaramente, devido ao alto desemprego e à queda de renda dos trabalhadores. O investimento está submergindo, já que empresários privados não são idiotas de investir se a demanda está em processo permanente de queda.

E o gasto público? Ah, o gasto público reflete a única ação deliberada de política econômica deste Governo: entusiasta da emenda 95, que congelou o orçamento público por 20 anos, Paulo Guedes tomou várias providências, inclusive através da DRU (Desvinculação das Receitas da União), para comprimir ao máximo os gastos públicos federais, obrigando ao mesmo procedimento os governos estaduais, a maioria deles quebrada.

O único suspiro de crescimento vem do saldo comercial com o exterior, mas ele é insignificante diante de um PIB de 6,8 trilhões de reais. Assim, há uma impossibilidade aritmética de crescimento do PIB em 2019. Ao contrário, em razão do comportamento em curso do consumo, do investimento e do gasto público correntes, é inevitável uma queda no segundo semestre, que se somará à queda do atual, compondo o fracasso do ano.

O Governo já sabe disso. Paulo Guedes está sinalizando para o desastre, e seu lugar-tenente, Mansueto Almeida, já declarou na Câmara com todas as letras que, mesmo com a aprovação da chamada reforma da Previdência, a economia não voltará a crescer tão cedo. Paulo Guedes, que é um farsante, insistiu várias vezes, para viabilizar o projeto no Congresso, que ele era essencial para a retomada da economia. A farsa será escancarada.

Talvez você se pergunta porque o Ministro mente tanto, na medida em que ele não pode ser um ignorante absoluto de questões econômicas elementares. Confesso que me custou muito chegar a uma conclusão. Guedes quer quebrar o Estado Social, assim como o Estado provedor de infraestrutura econômica. Só assim ele pode entregar aos amigos patrimônios públicos da dimensão da Petrobrás, da Eletrobrás e do BNDES.

É uma política de terra arrasada baseada na doutrina de que o Estado é ineficiente e o privado fará por si mesmo o desenvolvimento nacional. Roberto Campos tinha essa presunção. Achava que as estatais deveriam ser entregues ao setor privado mesmo que de graça. A preliminar era a crença na eficiência e na honestidade (!) privada. A cartilha está sendo seguida por Guedes num nível jamais visto de radicalidade.

Aliás, essa radicalidade é inaudita, desde os tempos de Spencer. Ao longo de décadas de conflitos entre neoliberais e social-desenvolvimentistas, as duas correntes tinham diante de si uma espécie de farol ideológico para lhes orientar a ação. Mirava-se o farol, lutava-se pelas respectivas teses, e tudo acabava em compromisso pois a nação é uma só. Desenvolvimentistas acatavam pontos do ideário liberal, e liberais acatavam pontos do ideário social.

Isso, na era de Guedes, é passado. Ele quer liquidar o oponente a fim de limpar totalmente o terreno para a privataria neoliberal sem acordos. Para isso a queda do PIB não é um embaraço para a economia, mas um estímulo à privatização. Ele não quer fomentar o crescimento econômico. De qualquer forma, se quisesse, contrariando seus instintos neoliberais, não haveria mais tempo para mudar o quadro. Neste ano, Alea jacta est!

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