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Economia para Indignados

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Economia para Indignados

Os Desatinos do Capitalismo

Luiz Gonzaga Belluzzo, economista e professor, SP

13/05/2019

Na edição de 26 de março de 2019, o jornal Valor relata o debate sobre teoria e política monetária entre André Lara Rezende, Pedro Malan e Edmar Bacha. Em artigo recente em Carta Capital – Meditações Keynesianas – busquei avaliar com simpatia e restrições o ponto de vista de André.

Em seus comentários, Edmar Bacha desqualificou os economistas americanos que formularam os princípios da chamada Moderna Teoria Monetária, abraçada por Lara Rezende: "militam em Universidades de pouco prestígio e não publicam nas principais revistas acadêmicas." Os infelizes, prossegue Bacha, "frequentam o andar de baixo da academia americana". Ainda mais grave, diz nosso Edmar, a nova teoria foi vilipendiada pelos corifeus da sapiência econômica, tais como Paul Krugman, Olivier Blanchard, Lawrence Summers e Kenneth Rogoff.

Bacha não mencionou que os bacanas celebrados por ele estão aturdidos, diante do reiterado e persistente fracasso de suas teorias e modelos.

Olivier Blanchard (ex-economista-chefe do FMI) e Lawrence Summers (ex-Secretário do Tesouro do Governo Bill Clinton) reconhecem, em seu texto "Rethinking Stabilization Policy: Back to the Future" (outubro de 2017):

"Vamos dar dois exemplos de questões fulcrais para as políticas econômicas que permanecem não-resolvidas: primeiro, assegurado que as bolhas de ativos eclodem e que sua interação com a alavancagem excessiva é crucial para a compreensão das crises financeiras, qual a importância relativa dos diferentes mecanismos? Um mecanismo é a perda de capital dos intermediários financeiros que respondem contraindo o crédito e derrubando a atividade econômica"

Concluem os arrependidos:

"os eventos dos últimos dez anos colocaram em dúvida a presunção de que as economias são capazes de se auto estabilizarem, levantaram novamente a questão se choques temporários produzem efeitos permanentes, e demonstrou a importância das não linearidades".

Ah é, é?

Em artigo publicado no Brookings Institute, em pareceria com Łukasz Rachel, Lawrence Summers retoma suas perplexidades com a estagnação secular, anomalia denunciada pelas taxas de juros reais muito baixas.

"Acreditamos que as tendências à baixas taxas de juros são mais bem compreendidas em termos de mudanças nas relações entre poupança e investimento ou, de modo equivalente, em termos das alterações nas formas de posse da riqueza almejada pelos consumidores e no desejo de acumulação de capital pelos produtores.

...Os resultados de nossa análise atribuem o crescimento do déficit e da dívida ao aumento da poupança vis a vis ao investimento... São muitas as preocupações a respeito dos efeitos tóxicos das baixas taxas de juros, incluindo aquelas que sugerem bolhas e alavancagem excessiva, na medida em que encorajam a tomada de risco e a má alocação de capital ao reduzir o custo do endividamento e as taxas de retorno requeridas, reforçar o poder de monopólio, beneficiar os mais velhos em prejuízo dos mais jovens ao tornar mais difícil o "funding" da seguridade social para os novos entrantes.

A possibilidade final reside em medidas estruturais que reduzam a poupança e promovam o investimento. São desejáveis políticas regulatórias transparentes que encorajem o investimento sem sacrificar objetivos sociais. Resta saber se estão disponíveis.

Os incentivos ao investimento também vão ajudar a promover a demanda. Políticas que reduzem as exigências de poupar para a aposentadoria, como, por exemplo, o fortalecimento da seguridade social, vão incentivar a demanda, mesmo em condições de equilíbrio orçamentário. Também operam nessa direção, as políticas de redistribuição de renda favoráveis aos que possuem maior propensão a consumir."

Em suas perplexidades, Summers menciona os desequilíbrios entre "as tendências à posse da riqueza desejada pelos consumidores e o desejo de acumulação de capital pelos produtores". Entre os "economistas do andar de baixo", essas tendências à posse da riqueza suscitaram os debates sobre financeirização.

Para não prosseguir perambulando no andar de baixo da inteligência econômica, vamos empreender uma incursão no andar do Bacha, aquele "de cima".

Citamos um estudo do Board of Governors do Federal Reserve:

"...corporações procuraram ativamente aumentar recursos líquidos a fim de acumular ativos financeiros e reforçar seus balanços. Se esse tipo de cautela das empresas tem sido relevante, isso pode ter conduzido a investimentos mais frágeis do que o normalmente esperado e ajuda a explicar a fraqueza da recuperação da economia global... descobrimos que a contraparte do declínio nos recursos voltados para investimentos são as elevações nos pagamentos para investidores sob a forma de dividendos e recompras das próprias ações... e, em menor extensão, a acumulação líquida elevada de ativos financeiros."

A expansão do crédito com taxas de juros baixas financia a recompra das próprias ações ou o aumento de recursos líquidos a fim de acumular ativos financeiros e reforçar balanços, em vez de financiar a aquisição de bens e serviços.

Deve-se admitir que para Lawrence Summers, um rebelde que se movimenta no interior do mainstream, é incômodo abandonar os pressupostos convencionais que informam as decisões de acumular riqueza no capitalismo contemporâneo.

No Livro III de O Capital, um certo Karl Marx estabeleceu a conexão entre a expansão do crédito - a criação de dinheiro pelos bancos - e a valorização especulativa dos ativos financeiros:

"Ao desenvolver-se o capital-dinheiro disponível também se desenvolve a massa de valores rentáveis, títulos do Estado, ações etc. Mas aumenta ao mesmo tempo a demanda de capital dinheiro disponível posto que os que especulam com títulos e valores desempenham um papel fundamental no mercado de dinheiro... Se todas as compras e vendas desses títulos não fossem mais do que a expressão dos investimentos reais de capital, seria acertado dizer que não influem na demanda de capital de empréstimo (Capital, Livro III, p. 479)."

Na segunda década do século XXI, os economistas do "andar de cima" contorcem os neurônios para compreender as proezas do capitalismo realmente existente, proezas já observadas na segunda metade do século XIX.

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