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Economia para Indignados

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Economia para Indignados

Ainda há honra no Planalto! Ou havia

J. Carlos de Assis, economista, RJ

16/06/2019

No ano de 2009, em plena crise financeira mundial, o Governo Obama recomendou a todos os países do G-20 que enfiassem os pés no acelerador em busca de políticas expansivas da economia. Era preciso ampliar a demanda através de aumento dos gastos públicos deficitários e da redução da taxa de juros. Os Estados Unidos saíram na frente. Fizeram um déficit fiscal de 1,5 trilhão de dólares em 2009, acumulando 7,5 trilhões nos anos seguintes, até 2014. A economia norte-americana, e principalmente o emprego, se recuperaram.

Na volta da reunião do G-20 em Washington, Luciano Coutinho, um dos mais competentes e íntegros presidentes do BNDES de todos os tempos, encontrou-se comigo num dos corredores do banco e me confidenciou: “Os Estados Unidos vão dar uma porrada (na demanda) de um trilhão”. Estava exultante com a diretiva política. E não ficamos atrás. O Governo brasileiro determinou ao Tesouro que repassasse 200 bilhões de reais ao BNDES, para que, em dois anos, ele aumentasse os empréstimos baratos ao setor produtivo interno.

Foi um sucesso absoluto, o maior de política econômica no Governo Lula. Em 2010 a economia brasileira, que havia entrado em depressão no ano anterior, cresceu nada menos que 7,4%, em plena crise mundial. Veja: fui sempre um admirador das políticas sociais do Governo Lula. Mas critiquei fortemente as políticas econômicas restritivas conduzidas por Henrique Meirelles no Banco Central e Antônio Palocci na Fazenda. Entretanto, aplaudi entusiasticamente essa política vitoriosa de enfrentamento interno da crise mundial.

Em 2015, como todos sabem, a presidenta Dilma Rousseff chamou Joaquim Levy para chefiar a economia brasileira. Ela tinha tido várias más escolhas na economia, mas esta, a meu ver, seria a pior: um governo de conotação social havia trazido para o centro estratégico do poder econômico um neoliberal. E Levy não se fez de rogado: meteu logo, goela abaixo do povo, um ajuste fiscal que daria o tom ideológico neoliberal ao regime - depois copiado por Temer e Bolsonaro -, na ilusão de que isso ajudaria a evitar o golpe do impeachment.

Quando Dilma se apercebeu de seu erro, e demitiu Levy, abriu-se o caminho para o neoliberalismo radical na forma da infame Ponte para o Futuro de Temer. Isso, porém, não chegou aos pés da política que está sendo aplicada sob Jair Bolsonaro, que nem nome e nem diretiva tem: é a política de Paulo Guedes, um economista medíocre de uma nota só - a saber, a nota de acabar com o Estado produtivo e normativo, simplesmente ignorando a necessidade de retomar o desenvolvimento e o emprego. Nesse ínterim, Joaquim Levy assumiu o BNDES.

Mais um filiado à doutrina neoliberal exótica de Guedes, pensei eu. Mas quando Levy anunciou agora sua renúncia, depois de uma reprimenda pública hipócrita de Bolsonaro, achei que era apenas um homem honrado reagindo a uma impertinência no plano pessoal. Entretanto, fui informado de que a razão real da demissão não tem nada a ver com isso. Foi a recusa de cumprir a ordem do Governo para o retorno ao Tesouro de 180 bilhões de reais relativos àqueles 200 bi de reais de 2009. O retorno tem o efeito inverso da medida original: é para contrair ainda mais a economia e fazer escalar o desemprego. Um crime econômico adicional aos muitos crimes econômicos de Guedes.

Levy teria se recusado também a fazer uma devassa no banco para acabar com o aparelhamento petista da instituição. Creio que não conseguiu identificar nenhum aparelhamento petista lá e por isso não agradou ao time de Bolsonaro. Pessoalmente, fui assessor da Presidência no segundo governo Lula e não sou do PT. Não só isso. Ataquei violentamente Meirelles, então presidente do Banco Central, inclusive na Procuradoria da República, e não fui demitido. O aparelhamento que Levy não viu, simplesmente não existe.

Na verdade, aparelhamento mesmo é o que Bolsonaro está fazendo na Administração: mais de 300 cargos do primeiro e segundo escalão foram ocupados por oficiais militares da reserva. Alguns devem ser competentes. Mas é claro que a maioria deve estar lá para ter uma boquinha adicional à aposentadoria. Isto, sim, é um aparelhamento injustificável. Bolsonaro não é dono do Governo para entupi-lo com amigos. E se o Governo afundar, como está afundando, gostaria de ver se os militares que estão lá, inclusive o furibundo Heleno, terão honra para fazer o que fez Levy: pedir o boné e pular fora!

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